GRATIDÃO



                                                                         
Foto: Lúcia Rocha
     

             Dizem que colocar filhos no mundo é fácil, difícil é criá-los. Pois adiciono que mais difícil do que criar filhos é receber deles o mesmo tratamento, ou seja, vê-los cuidar de seus pais, quando chegar a hora. 
         São muitas as famílias onde apenas um cuida do seu pai ou de sua mãe. Os demais ignoram ou não são tão presentes quanto deveriam.
         Por que uns cuidam e outros ignoram, sendo que foram criados no mesmo ambiente?
         Por muito tempo procurei a resposta e encontrei, num livro de auto ajuda, Como Evitar Preocupações e Começar a Viver, de Dale Carnegie. Publicado na década de 1940, o livro já vendeu mais de 15 milhões de exemplares, em 36 idiomas.
         No capítulo Se você fizer isto, jamais se preocupará com a ingratidão, o autor lembra que Cristo curou dez leprosos numa única tarde e pergunta quantos leprosos se detiveram para agradecer? Apenas um.
          (...)
          "A coisa é assim. A natureza humana sempre foi a natureza humana - e provavelmente não mudará enquanto você viver", diz o autor, que recomenda não andarmos por ai resmungando coisas contra a ingratidão. "Não esperemos gratidão", sugere.
         Sobre filhos que cuidam de seus pais, o autor descreve um caso familiar:
         "Há milhares de anos, milhares de pais vêm arrancando os cabelos devido à ingratidão dos filhos.
         Até mesmo o rei Lear, de Shakespeare, exclamou: 'Como o filho ingrato causa mais dor do que as presas de uma serpente!'.  
         Mas por que deveriam ser gratos os filhos - a menos que os ensinássemos a que o fossem? A ingratidão é natural - como as sementes. A gratidão é como uma rosa. Tem de ser tratada, regada, cultivada, apreciada e protegida.  
         Se os nossos filhos são ingratos, de quem será a culpa? Talvez nossa. Se jamais lhe ensinamos a manifestar gratidão para com os outros, como poderemos esperar que sintam gratidão para conosco?
         (...)
         Devemo-nos lembrar de que os nossos filhos são o que fazemos que sejam. A irmã da minha mãe, por exemplo - Viola Alexander, de Mineápolis - é um excelente exemplo de mulher que nunca teve motivo para se queixar de 'ingratidão' dos filhos. Quando eu era menino, tia Viola levou a mãe para a sua casa, a fim de amar e cuidar dela; e fez o mesmo com a mãe do marido. Posso ainda fechar os olhos e ver as duas senhoras idosas sentadas junto à lareira, na fazenda de tia Viola. Será que essas senhoras 'amolavam' tia Viola? Oh, frequentemente, creio eu. Mas ninguém poderia suspeitá-lo pela atitude. Ela amava aquelas duas senhoras idosas, de modo que as mimava, agradava a elas, fazia com que se sentissem em suas próprias casas. Além disso, tia Viola tinha seis filhos - mas nunca lhe passou pela cabeça que estivesse fazendo algo especialmente nobre, ou que merecesse qualquer halo de santidade por receber essas senhoras em sua casa. Para ela, isso era natural, algo que devia fazer, pois desejava fazer aquilo.
         Que foi feito de tia Viola? Bem, está viúva há vinte anos, e tem cinco filhos já adultos - cinco casas diferentes - todos eles reclamando a sua presença, querendo que ela vá viver em suas casas. Os filhos adoram-na - jamais se cansam dela. Agem assim por 'gratidão'? Tolice! É amor - puro amor. Durante toda a infância, os seus filhos estiveram cercados por uma atmosfera de cálida e radiante bondade humana. É de se estranhar, acaso, que agora, que a situação mudou, eles lhe retribuam com amor?
        Lembremo-nos, pois, de que, para criar filhos que nos sejam gratos, devemos ser gratos. Lembremo-nos de que 'as crianças têm orelhas grandes' - e tenhamos cuidado com o que dizemos. A próxima vez, por exemplo, que quisermos menosprezar a gentileza de alguém, em presença de nossos filhos, devemos calar-nos. Não devemos nunca dizer: "Veja estes panos de prato que a prima Sue nos mandou como presente de Natal. Ela própria os fez. Não lhe custaram um centavo!". O comentário pode parecer-nos trivial - mas as crianças estão ouvindo. Em lugar disso, seria melhor dizer: "Quantas horas a prima Sue deve ter gasto fazendo esse pano de prato! Como foi amável! Vamos escrever-lhe já um bilhete de agradecimento". E, desse modo, os nossos filhos vão, inconscientemente, adquirindo o hábito da apreciação e do reconhecimento.

      Para evitar ressentimentos e preocupações quanto à ingratidão:

      A) Em lugar de nos preocuparmos com a ingratidão, esperemo-la. Lembremo-nos de que Jesus curou dez leprosos numa tarde - e que somente um Lhe agradeceu. Por que deveríamos esperar mais gratidão do que Jesus recebeu?"

      B) Lembremo-nos de que a única maneira de encontrar felicidade é não esperar gratidão, mas dar apenas pela satisfação de dar.

      C) Lembremo-nos de que a gratidão é algo que se 'cultiva'; se quisermos, pois, que os nossos filhos nos sejam gratos, devemos ensinar-lhes a cultivar a gratidão."      

                                 


                                                                     
O fim como o começo. Foto: Filomena Cabral Rocha

       Ao final do texto, chego à conclusão de que: não basta o filho saber que o pai ou a mãe cuidou de seus genitores. O filho tem que ver.
       Tem que cultivar desde sempre a política do agradecer. Não basta dizer, tem que fazer. O exemplo vale mais do que qualquer discurso.  




Comentários

  1. Gostei de ler o seu texto, Lúcia. Eu também já me fiz muito essa pergunta mas deixei de fazê-la. Felizmente há sempre alguém que olha por eles, e procuro fazer a minha parte.

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