Lauro da Escóssia Filho

O menino que lia jornal

                                 
Lauro da Escóssia Filho

Por Fernanda da Escóssia
Jornalista, filha

O menino aprendeu a ler aos 4 anos. De pé em cima de um banco, lia o jornal, e o povo na rua parava para ouvir as notícias. O menino nascera e crescera dentro de um jornal, O Mossoroense, fundado em 1872 por seu bisavô, Jeremias da Rocha Nogueira. No Brasil, era o tempo de um jornalismo de causas, panfletário, e O Mossoroense teve as suas: era republicano, abolicionista e antijesuítico.
A lembrança do velho jornal de província invade minhas leituras enquanto leio, estudo, preparo aula e escrevo sobre jornalismo, mas também de modos mais insólitos. Ao estudar Ciências Sociais com meu filho, o livro cita a imprensa abolicionista do fim do século XIX. Pois seu tataravô fundou um jornal nessa época, filho. Abolicionista. Foi, mãe? Foi. Esse movimento abolicionista também ocorreu nas antigas províncias. Entendi. (Agora estou levemente preocupada. E se ele exagerar e botar na prova que o tataravô derrubou Dom Pedro II?)
Volto às leituras, às aulas, aos livros. No século XIX, ensinam alguns autores, o jornalismo passou por grandes mudanças, entre elas a mecanização, com a introdução das rotativas Marinoni. O Mossoroense também teve sua Marinoni, importada da França e responsável pela impressão de edições históricas, como a notícia da derrota do bando de Lampião, em 1927, e a entrevista concedida pelo cangaceiro Jararaca ao jovem repórter Lauro da Escóssia, que depois viraria Lauro Velho, meu avô.
A Marinoni foi aposentada quando Lauro da Escóssia Filho, o menino que lia jornal, modernizou O Mossoroense e introduziu as linotipos. Forçado a vender O Mossoroense, o menino jamais deixou de amar sua província e seu jornal. Quando entrei na faculdade de jornalismo, ele me presenteou com "História da Imprensa no Brasil", clássico de Nelson Werneck Sodré que herdara da biblioteca de Lauro Velho. Quando, nas aventuras de repórter, doidamente entrei na garagem do Palace 2 já desabado, ele me escreveu uma cartinha datilografada de um parágrafo: "Soube de suas aventuras no edifício Palace. Cuidado com os perigos que rondam esses gestos de bravura".
Em 31 de dezembro de 2015, O Mossoroense, aos 143 anos e então o terceiro jornal mais antigo do Brasil ainda em circulação, despediu-se da versão impressa, mantendo apenas o formato digital. O menino que lia jornal deu um risinho e voltou a lembrar as noites em claro, a Marinoni e a linotipo. Hoje de novo falamos de como a história passou pelo jornal de província, e por isso deixo aqui sua foto na velha Marinoni. Obrigada, pai, por suas histórias, suas lembranças e seu amor de poucas palavras, mas infinito.

Comentários

  1. É excelente o nível das postagens, muito rico em conteúdo e importante para quem se interessa pela história de Mossoró. Pena que o tema (modelo visual) usado na apresentação não ajude, em vez de estimular a leitura, torna-a desconfortável. Sugiro alterar para texto em fundo branco, uma apresentação sem grande apelo visual, mas que valorize o texto.

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