A PARTIDA DE UMA MÃE

 

                                                                             Foto de Paulo Eduardo


Inalda Cabral Rocha

       Quem disse que perder a mãe dói, falta com a verdade, pois é uma dor sobre-humana, imensurável. Mas, infelizmente, chega a hora delas e, com a minha, não foi diferente.
     Deus me deu a oportunidade de estar com ela em seus últimos momentos com vida aqui na terra.
     Naquele dia, ela não leu, não abriu nenhum livro e não pegou no jornal, pela primeira vez, respirou com a ajuda de um cilindro de oxigênio, que há muito fazia parte da decoração do quarto. Havia bronquiaspirado na noite anterior, porque tinha dificuldade de deglutir, comum a idosos.
     Se é difícil perder pessoas próximas, então, perder alguém tão próximo, como a mãe, somente Deus para consolar.          
     Quem diria que eu estaria cuidando dela... Passava um pouco das 21 horas e todas as luzes já apagadas para dormir. Em nove minutos, deixou de respirar e o coração parou. 
      Assistir os minutos finais de uma pessoa que viveu para plantar, para construir pontes, uma dor forte invade o coração sem pedir licença. Embora as palavras não apaguem o sofrimento que a gente sente, cantei um louvor e assim ela se foi.
     Eu sabia que minha mãe não era eterna, um dia iria embora. Aconteceu numa hora em que eu estava ao seu lado, a tempo de avisar os outros filhos, que chegaram quando ela nos deixava.
     Dona Inalda foi com a certeza da salvação, foi com sua fé.       Ficamos gratos a Deus por Ele ter vindo pegá-la em casa, sem dor, sem sofrimento, longe de ambiente hospitalar, junto aos seus e à Francisca Lucycleide, uma das técnicas que a acompanhava, justo a que mais tempo esteve com ela, participou da intimidade e da rotina de nosso lar, há pouco mais de três anos.   
     Quem diz da dor de perder uma mãe, esconde o quão grande é o sofrimento, a dor, o sentimento de perda. A gente vê de outra forma quando é com nossa mãe.
     Temos que buscar força em tudo o que aprendemos com ela. A força maior vem de Deus, mas o exemplo que nossa mãe deixou para a gente é de uma mulher muito forte e guerreira. A única vez que a vi chorar foi no velório da sua mãe.
     Uma mãe que, confiando, não desistiu nunca, apesar das circunstâncias.
     Ela se foi calma, tranquila, sem um adeus, como se dissesse “Não fiquem desesperados, chegou minha hora, porque sei que estou com Deus”. E foi com a fé dela, louca para reencontrar Luzia, a primogênita, que faleceu aos cinco anos de idade, prometendo guardar um bom lugar para a mãe. Mamãe nunca esqueceu essa filha, vivia com sua foto e não havia um dia em que não falasse em Luzia, uma de suas paixões.
     Eu e meus irmãos agradecemos a Deus por tê-la como mãe. Ela já passou por tanta coisa nessa vida. A gente se identifica tanto com a vida dela, que estamos sendo fortes, não podemos nos dar ao luxo de deixar uma depressão ou mesmo ansiedade nos derrubar.
     Toda vez que vem sua lembrança, lembro e canto as músicas que cantava conosco desde criança, do padre Zezinho e, mais recentemente, do Padre Alessandro Campos, além dos hinos da harpa cristã.
     A fé e força da nossa mãe é exemplo para todos que a conheceram.
     A gente precisa continuar firme e forte, com Deus à frente dos nossos projetos, para o coração se acalmar mais.           
     Ficam algumas perguntas: se faltou dizer algo, se faltou fazer algo, se isso, se aquilo. A certeza do dever cumprido nos sustenta.  
     Fico imaginando que a dor de quem abandona uma mãe ou pai deve ser terrível, no momento da perda.
     Em tempo de pandemia, não foi difícil esconder a informação do que estava acontecendo. Os cuidados foram redobrados com os filhos e netos, para evitar que se contaminasse porque fazia parte da rotina receber profissionais como fonoaudióloga, fisioterapeuta, enfermeira, assistente social, dentista, nutricionista que sempre fizeram uso de máscaras e usavam alcool gel quando adentravam a casa, o que contribuiu para ela não perceber nada. 
     Na televisão, só assistia canais com programação cristã. 

     Agradecemos ao Senhor por nossa mãe ter tido direito a velório, a despedida, onde recebemos amigos e familiares, embora não pudéssemos abraçar ou ser abraçados. Um velório diferente, com testemunhos e passagens engraçadas, por parte de familiares e de pessoas que ela fez a diferença em suas vidas.
     Felizmente, as memórias, ao contrário da vida, não nos pode ser roubados. É nelas que encontramos motivação para continuar, mas é Deus que conforta nossos corações.            
      Chegou a sua hora e ela foi com Deus.
      Para quem tem fé, a vida é eterna, nunca tem fim.             



Com os filhos, Cida e Canindé


Com Francisca Lucycleide



Sempre com livros à mão


Com o neto, Marinaldo

 











Comentários

  1. Gratidão por conhecer essa mulher forte e corajosa.

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  2. Edilene fogão de luz2 de maio de 2021 07:56

    Sei o que é essa dor,eu já senti,mas o conforto vem do Senhor,a certeza que um dia nós encontramos.

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  3. História de vida, maravilhosa!❤❤👏👏👏👏👏

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