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REFLEXÕES SOBRE O DIA DO JORNALISTA



     DA IMPORTÂNCIA DE COMEMORAR 
  
          - E REFLETIR - 

        O DIA DO JORNALISTA



Paulinho Araújo

Por Paulo Araújo
Jornalista
Neste 7 de abril, comemoramos o nosso dia, o Dia do Jornalista. Dia para dar e receber parabéns, mas também para fazermos reflexões profundas sobre as mudanças, facilidades, dificuldades e futuro dessa profissão tão maravilhosa que abraçamos. Listo aqui as minhas questões, em forma de tópicos simples, perguntando até que ponto temos motivos realmente para comemorar e lembrando que sem a imprensa - e tantos profissionais aguerridos que a fazem - o Brasil seria muito pior.



1)...Temos um dos pisos salariais mais baixos do Brasil. E não há luta sindical que resolva esse problema. Acompanhamos todas as greves, detalhamos o pormenor de todas as negociações salariais do Brasil, mostramos todos os dias a importância de professores, médicos, motoristas de ônibus, empregadas domésticas etc ganharem bem, mas jogamos uma cortina de fumaça gigantesca sobre a nossa própria remuneração. Por quê?

2) ...Ganhamos mal, somos financeiramente mal reconhecidos, precisamos, o tempo todo, encontrar alternativas de trabalho para complementar a nossa renda - e nesse caminho muitos se perdem, especialmente os menos preparados psicologicamente para entender que o mundo do luxo, poder e status que reportam não lhes pertence - mas sim pertence ao veículo que lhe emprega, enquanto for do interesse dele.

3) ...Temos uma das jornadas de trabalho mais extenuantes entre todas as profissões, uma vez que trabalhamos com um "produto" que não escolhe hora para acontecer - a notícia. Por isso, sacrificamos horas, dias, meses e até anos longe do convívio da família, seja em busca de mercados distantes, de novas oportunidades ou mesmo por amor ao veículo em que trabalhamos. Esse "gap", lembre-se, não é recompensado em forma de "extras" ou "deslocamentos", como em outras profissões. Fazemos reportagens cobrando o ponto eletrônico nas repartições públicas. Mas nossas redações comportariam um ponto eletrônico? Em que medida ele funcionaria de verdade?

4)...Temos e trabalhamos num contexto político onde os veículos de comunicação, infelizmente, não assumem claramente suas posições ideológicas. O que é ruim para a sociedade e para o profissional que nele trabalha. Falseamaos uma "democracia" e uma "liberdade de imprensa" - quando o que existe no Brasil, de norte a sul, é "liberdade de empresa".

4)...Sofremos de uma "desvalorização moral" gigantesca da profissão por parte de diversas instituições, a ponto de um ministro de estado tentar derrubar o diploma que nos garante o exercício da profissão, alegando que fazer jornalismo é como ser manicure ou chef de cozinha - com todo o respeito a essas profissões maravilhosas que hoje, verdadeiramente, são melhor remuneradas do que a nossa. Jornalista precisa de estudo, de formação, de diplomação. Ele vai "mexer" com uma coisa muito importante ao longo da carreira: oferecer informações à sociedade para que ela tome decisões.

5) ...Fechamos os olhos para o fechamento constante de veículos de comunicação e a redução de vagas de trabalho no mercado como se isso não contribuísse, ao fim e ao cabo, para o enfraquecimento da democracia no nosso país. Quanto menos jornais, revistas, emissoras de rádio e tv, blogues e afins existirem, pior para a difusão da informação. Vejam a Venezuela, a Argentina, a Coreia do Norte, Cuba. Deixe de lado as paixões políticas e admitam: estamos melhores no Brasil por causa da imprensa.

6) ...Tornou-se senso comum achar que as informações difundidas em redes sociais, por toda e qualquer pessoa, sem o apuro da checagem, da escuta do outro lado, do conhecimento de leis e do risco de colocar a honra dos cidadãos e instituições brasileiros no lixo, substitua jornais, revistas, programas de rádio e tv, que cada vez são sufocados e tem como destino certo o fechamento.

6) ...Passamos por um empobrecimento vertiginoso na formação intelectual dos jornalistas no Brasil. Seja pelo baixíssimo nível dos cursos oferecidos nas universidades, seja pelo total desinteresse (quando devia ser obrigação) em quem "sonha" em ser jornalista de ler livros, muitos livros, ver filmes, muitos filmes, formar um repertório e conhecimento de mundo minimamente razoáveis para se colocar diante de um entrevistado, seja ele quem for, e não fazer perguntas absurdas como as que formam o folclore profissional em bares e corredores de redações. As ofertas de estágio, passo importantíssimo para a formação de um estudante, são cada vez menores. Talentos valiosos se perdem e desistem ao longo do caminho por falta de oportunidades.

7)...O surgimento e crescimento de um ambiente hostil nas redações brasileiras, seja pelas razões listadas acima ou pela ausência cada vez maior de chefes, gestores, líderes e principalmente "professores" que transmitam seus conhecimentos a quem está chegando é outra praga horrorosa. Na vida real, a experiência acumulada, a agenda de contatos, o trânsito nos gabinetes, os convites, as entrevistas exclusivas, as festas, tornam-se, erroneamente, símbolos de status e moedas de troca entre quem, na verdade, deveria se ajudar. É o coorporativismo às avessas do "eu" contra "todos".

8)...O pouco desejo - ou a convicção - de se reciclar e aprender a cada dia é outra coisa a se repensar. Ao contrário de uma prova da OAB ou de uma residência médica que é feita a cada dez anos, nós, jornalistas, imaginamos que já sabemos de tudo, já vimos de tudo, não precisamos nunca de um exame periódico, um ENEM da vida. Vai-se fazendo e pronto. Na verdade - e isso é muito doloroso admitir - o jornalismo transformou-se numa profissão onde a maioria não sabe de quase nada - somente tem o telefone de quem sabe.

9) ...Por fim, antes que pensem que só falamos de espinhos, é bom lembrar, todos os dias, que sem a imprensa livre o Brasil não teria chegado ao estado de desenvolvimento político e democrático em que se encontra hoje - e isso é motivo de comemoração silenciosa NOSSA todos os dias. Toneladas e toneladas de lama foram lavadas a partir do trabalho - muitas vezes solitário - de jornalistas corajosos que não se vergaram ao julgo do poder e mostraram, nas duas últimas décadas, que a informação circula livre e soberana neste nosso grande país. Desde a derrubada de um presidente, a queda de ministros, passando pelas bases para a realização do maior julgamento político da história são muitos fatos que merecem ser gravados no Panteão da Glória dessa profissão maravilhosa. Se não foram para frente as denúnicas ou os seus envolvidos não tiveram a punição que mereciam, aí já não é mais por culpa nossa, pois não temos o poder de polícia e de justiça - ao contrário do que, erroneamente, muitos pensam.

Somos apenas jornalistas. Parabéns para nós!

Comentários

  1. Ola amigo quero parabenizar pelo ótimo trabalho que seu blog vem exercendo

    Gostaria de li sugerir o Gadget LEIS E CÓDIGOS do Brasil: Para seu Blog.
    O Aplicativo LEIS E CÓDIGOS vem com os linkis das Leis e códigos da federação Brasileira
    Tipo: Liberdade de Imprensa ,Estatuto da Criança e do Adolescente, Código de Transito Brasileiro entre outros.

    Link do Aplicativo: http://www.portallasic.com.br/2013/03/leis-e-codigos.html

    minha admiração

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