SÃO PAULO ESTÁ PARADA

   
Maria Eulina


Maria Eulina*


A gente se sente tão isolada.
Estou há duas semanas trancada em casa, sem fazer absolutamente nada.
São Paulo está parada.
Abro a janela do meu quarto, vejo a Avenida São João, como se fosse uma avenida fantasma.
O Minhocão, como se fosse uma ponte fantasma.
E, na realidade, está fantasma.
É tão triste ver tudo isso, é tão frio, é tão doído.
É tão... É tão gelado.
O mais, a gente tem que fazer uma reflexão.
Tudo isso serviu para que o ser que está neste planeta reflita sobre tudo.
Sinta que o mais forte de tudo não é a corrida para ter, ter, ter.
O mais forte de tudo é a corrida de ser, de servir, de amar.
De olhar um para o outro como se fosse o eu.
Porque assim que é e é assim que tem que ser.
De olhar o presente que recebemos de Deus, esse planeta lindo e maravilhoso e não um planeta para ser destruído, por nós mesmos. É para ser cuidado.
Espero que tudo isso termine breve, que vá tão rápido quanto veio.
Que a gente saia dessa história, dessa bolha mais fortalecido, mas não fortalecido numa economia.
Mas fortalecido no amor, na paz, no abraço, no aperto de mão, no olhar, no sentimento.
Que possamos ter feito uma reflexão dentro de nós, sentir e saber que somos feitos da mesma matéria. Somos iguais.
Ninguém é feito de aço, nem de fogo como mostram os filmes americanos.
E nenhuma economia é mais forte do que a própria vida.
A gente precisa repensar, refletir e parar com egoísmo, com ego, de achar que somos melhor, um melhor do que o outro, porque não somos.
Todos nós vamos voltar para casa. Todos nós estamos dentro do vagão de um trem e sabemos que ele vai parar, não sabemos em que estação e que horas vamos descer.
Vamos precisar nos rechear de sentimentos e pensamentos bons e, principalmente, de gratidão.
Hoje, aqui, no meu apartamento, sozinha nessa casa, sem poder receber meus filhos, minhas netas. Eles vêm me trazem as coisas, deixam dentro do elevador, abro a porta e recebo. Isso me dá uma tristeza profunda, porque não precisamos passar por isso.
O egoísmo do homem fez tudo isso acontecer. A ignorância também.
O vírus que não se sabe de onde veio, se deu um nome, mas não se sabe que nome é.
Os maiores cientistas do mundo reunidos para descobrir uma cura para tudo isso e não conseguem porque a lição de casa ainda não foi feita.
Tudo isso nos faz parar para pensar porque estamos parados e só temos uma coisa a fazer é pensar: quando saírmos dessa história, quem sobrar, o que vai fazer?
Espero que sejam coisas boas.

Maria Eulina Reis Hilsenbeck é maranhense, há mais de quarenta anos radicada na capital paulista. Filha de fazendeiro, viveu em São Paulo, situação de rua. Deu a volta por cima, casou-se com o diretor-superintendente da Companhia de Leite Vigor. Viveu o lixo e o luxo, abriu uma ONG - Clube de Mães do Brasil - que preside e, em 2005, teve sua vida retratada na biografia Catadora de Sonhos, de Lúcia Rocha.    

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