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     AUGUSTO ESCÓSSIA NETO: FAZENDO ARTE NO CÉU  



             Vítima de sua própria ingenuidade. Assim encontro justificativa para tão brutal tragédia ocorrida na cidade que, até então, desconhecia qualquer caso semelhante.
             Augusto Escóssia, vítima de uma armação de jovens com menos de vinte anos de idade, jamais imaginaria que estaria imune ao tipo de atrocidade que lhe cometeriam. Talvez até por excesso de confiança em alguém que se dizia amigo.
             Augusto era um amigo de infância, crescido que fomos no centro da cidade. Participamos de brincadeiras de rua. Lucinha, sua irmã mais nova, e alguns de seus primos também faziam parte do grupo.  
             Crescemos. Cada um tomou seu rumo. Augusto, aprovado em concurso público para o INSS, logo atingiu a independência financeira, passou a morar sozinho, num lar que construiu com sua arte de decorar.
             Sempre alegre, alto astral. Rosto jovial e familiar seguia sua vida, sem ter que dar satisfação a ninguém.  
             No ano passado tive o prazer de reencontrá-lo. Primeiro através da rede mundial de computadores, no Orkut. Ele me achou e enviou uma mensagem. De lá para cá, dificilmente deixava de mandar recados inteligentes, do bem.
             Mas o reencontro físico foi no último dia 12 de dezembro, em jantar na casa de um irmão meu. Como uma grata surpresa Augusto chegou. Aquele jeito de meninão. Sorriso largo. De alguém que sempre está de bem com a vida.
              Por muito tempo conversamos. Ele com uma sede enorme para botarmos os assuntos em dia. Seguia-me todo tempo com os olhos, quando eu me afastava para, em seguida, chegar junto e puxar mais um assunto. Na despedida, ficou a promessa de um breve encontro. Então conversaríamos em sua casa.                   
              No dia da tragédia, coincidentemente, encontrei seu irmão, Frederik.  Aproveitei e pedi o telefone de Augusto. Fez melhor. Ligou para o celular dele e me passou o aparelho. Falei com um Augusto apressado, apreensivo e ansioso. Diferente do nosso último encontro. Algo me deixou indignada naquele papo. Dizia que estava de férias e, depois, marcaria um encontro. Cheguei         a pensar que estivesse em alguma praia e eu, incomodando seu lazer.
              Era quase meio dia. 
              Ficou a impressão de que não haveria aquele encontro. 
              Foi a última vez que nos falamos.

Jornal PÁGINA CERTA, janeiro de 2007 

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